A Banda

 

Distintos Filhos lança seu segundo disco, "Exílio"

Após seis anos de seu debute fonográfico, banda expoente do novo rock brasiliense apresenta seu segundo álbum

   Em 2015, quando lançou o single Não Leve a Mal, a DISTINTOS FILHOS já anunciava o que se podia esperar de seu segundo disco: poderosos riffs de guitarra, exploração de novas possibilidades vocais e a consolidação do novo formato da banda, um trio de músicos sem baterista ― remanescentes do árduo processo de divulgação do trabalho de estreia. 

   Uma curiosidade sobre a música, gravada no primeiro semestre daquele ano, é que ― sem baterista na banda ― o guitarrista Paulo Veríssimo assumiu as baquetas durante as sessões de gravação capitaneadas pelo produtor Philippe Seabra, no estúdio DayBreak. Uma forma de mostrar que, a despeito da debandada de muitos colegas músicos, desanimados com a arduidade da carreira, o trio ― que antes era um sexteto ― iria "até o fim" para fazer seu trabalho ecoar Brasil afora.

   A súplica "desliguem o meu coração", cantada repetidas vezes durante a música, somada aos tons de cinza e ao clima gélido da câmera frigorífica que serve de cenário ao clipe produzido pelo jovem diretor Igor Cabral, materializa o estado de espírito dos músicos durante o interstício de seis anos que separam o primeiro e o segundo disco, recém-lançado.

   Agora, "Não leve a mal" se une a outras nove faixas inéditas no novo trabalho da banda para retratar angústias, perdas, dúvidas, conquistas, esperança e amadurecimento.

 

Exílio: faixa a faixa

   O clima misterioso instaurado pelo lançamento de "Não Leve a Mal" criou o pano de fundo ideal para um mergulho existencial no universo criado pelos músicos Ivo Portela (baixo), Marcos Amaral (teclado) e Paulo Veríssimo (guitarra) no disco "Exílio". O mergulhador criado pelo ilustrador brasiliense Caius Cesar para ilustrar a capa do novo trabalho do trio é uma metáfora perfeita para o sentimento de afastamento, frieza e torpor que perpassam as dez faixas de "Exílio".

   O encadeamento de acordes diminutos e o naipe de metais que introduzem "Espelho", faixa de abertura do disco, causam impacto imediato. Fugindo da estrutura estrofe/refrão, a música apresenta uma dinâmica crescente cujo ápice é uma catarse musical promovida pelas participações especiais dos saxofonistas Esdras Nogueira e Paulo Rogério (da banda Móveis Coloniais de Acaju), do trombonista Jefferson Moura e do guitarrista Thiago Hoover (da pernambucana Mamelungos). Aqui, o recado é claro: aquela banda, outrora debutante no mercado fonográfico, quer se recriar, melhorar, ir mais longe.

   E se "reinventar-se" é uma das palavras de ordem do "Exílio" a que nos convida a DISTINTOS FILHOS, ela vem acompanhada ― por vezes ― dos sentimentos de solidão e isolamento cantados nos versos de Bem Mais Feliz: "E as dúvidas e incertezas tomam a minha mente, e o sono já não vem", entoa André Gonzales, vocalista da também brasiliense Móveis Coloniais de Acaju.

   Este sentimento, típico do exilado, aparece novamente em "Mais uma vez", balada que, em breve, deve ganhar videoclipe. "Preciso me achar, mas não lembro onde perdi, e sigo sozinho", canta Paulo Veríssimo acompanhado pela bateria pulsante de Peu Lima, músico da banda pernambucana Mamelungos, que deixa sua marca em outras seis faixas do disco.

   A presença do bandolim, que o ouvinte mais atento perceberá em "Mais uma vez" (faixa 4) e "Teu Lar" (faixa 9), mostra que a DISTINTOS FILHOS deu-se o direito de experimentar novas sonoridades. "Contradições" (faixa 3) é temperada por um inusitado acordeon que mistura-se a baixo, bateria e guitarra para criar uma música que nos remete imediatamente ao rock produzido na capital durante os anos 1980, por bandas como Plebe Rude e Legião Urbana.

   Brasília não forneceu apenas insumos artísticos aos músicos da DISTINTOS FILHOS, por meio de suas bandas mais célebres. Ela é também "musa inspiradora" para a faixa-título, "Exílio". "Há algum tempo, viajamos para São Paulo para divulgar o trabalho da banda. De lá, conseguimos nos distanciar de Brasília para observá-la como 'estrangeiros'. Passamos a ter uma  dimensão real do que é viver e fazer música em Brasília apenas ao nos afastarmos, ao nos exilarmos... Percebemos o isolamento, os empecilhos, mas também o vínculo afetivo que temos com a cidade", explica o guitarrista Paulo Veríssimo. Por isso, a letra conjuga, paradoxalmente, a necessidade de afastar-se da cidade e a vontade de voltar. Este sentimento de "desilusão" é transmutado em um pesado e marcante riff de guitarra, que é acompanhado pelo baterista brasiliense Maicon Vasconcelos.

   "Velho Eu" (faixa 8) traz mais uma participação especial: João Suplicy, dando voz a sentimentos nostálgicos que "pintam" o "Exílio" da DISTINTOS FILHOS. "O que era bom não serve mais, já virou 'blasé' há um tempo atrás... e aquela canção que te tocou não toca mais", são alguns dos versos que ganham o aveludado da voz do músico paulistano, parceiro da banda desde 2013, quando o Brothers of Brazil (sua banda em parceria com o irmão Supla) participou do lançamento do clipe "Deixa Acabar". O mesmo sentimento de nostalgia está presente em "Outro Lado" (faixa 7), composição do baixista Ivo Portela que canta: "As coisas que te faziam rir, um dia vão se tornar um lugar seguro, a lembrança de amar".

   Há contrapontos de esperança e de muita força frente ao torpor do exilado que ganha vida durante a audição do disco. Há momentos dançantes, harmonias e timbres que contrastam com a soturnidade à qual tende o disco e dão dinâmica às canções. Aquele mergulhador metafórico, afundado em angústias e reflexões, está, na verdade, em busca de seu "Santo Graal", sua felicidade. Para tanto, ele está disposto a lutar "Até o fim" (faixa 10). O desfecho do disco tem tanta força quanto o seu início, ratificando a obstinação de uma banda na estrada desde 2004 em busca de seu "lugar ao sol". Agora, Paulo Veríssimo canta, aos brados: "Eu não me canso mesmo que só eu queira lutar... minha vida é esse jogo, deixa eu jogar".

 

Financiamento coletivo, gravações e turnê

   "Exílio" é o sucessor de "Distintos Filhos", primeiro disco da banda lançado em 2011. Para o novo projeto, os músicos promoveram uma campanha de financiamento coletivo no início do ano passado. "A gente fez este financiamento coletivo para nos aproximar, ainda mais, das pessoas que gostam do nosso trabalho", explica Paulo Veríssimo.

   A partir de então, a banda dedicou-se em registrar as 10 faixas que hoje compõem os pouco mais de 30 minutos de "Exílio". As gravações se estenderam entre julho de 2016 e janeiro de 2017, e tiveram produção assinada pela banda e por Philippe Seabra, guitarrista da Plebe Rude.

   O disco está disponível na principais plataformas de streaming (Spotify, iTunes, Deezer etc) e, desde maio, a banda está em turnê apresentando o resultado dessa empreitada. Brasília (DF), Anápolis (GO), Crato (CE), Juazeiro do Norte (CE), Fortaleza (CE) e Mossoró (RN) foram os primeiros destinos da turnê que, ainda este ano, deve fazer escalas em São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte, Goiânia e outras cidades.